Uma perseguição de aproximadamente 17 quilômetros pelas ruas de Joinville, iniciada após denúncias de ameaças e envolvendo um motorista que, segundo os relatos apresentados no processo, estava sob efeito de álcool, terminou com disparos contra os pneus do veículo.
O episódio aconteceu em fevereiro de 2020, mas voltou a ganhar repercussão seis anos depois, após a execução da condenação do policial militar Nelson de Oliveira e Silva, que na época era sargento.
Conhecido como “Nelsão” e tratado por integrantes da corporação como uma referência na atuação operacional, Nelson possui mais de quatro décadas de carreira na Polícia Militar de Santa Catarina. Em 2024, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina registrou que ele já havia sido responsável por mais de 350 prisões em flagrante ao longo de 40 anos de carreira. Em 2025, recebeu a Comenda Barriga Verde, uma das principais honrarias da PMSC, por sua trajetória de mais de 41 anos de serviço. (ALESC)
COMO A PERSEGUIÇÃO COMEÇOU
A ocorrência aconteceu na noite de 17 de fevereiro de 2020, por volta das 23h, nos bairros América e Glória.
Segundo os relatos reunidos no processo, moradores acionaram a Polícia Militar após um homem apresentar comportamento agressivo e fazer ameaças.
Ainda conforme os depoimentos, o motorista estaria embriagado e teria ameaçado matar vizinhos.
Quando uma guarnição tentou realizar a abordagem, o condutor teria desobedecido à ordem de parada e iniciado uma fuga em um Gol vermelho.
A partir daquele momento, começou uma perseguição que durou aproximadamente 12 minutos e percorreu cerca de 17 quilômetros.
MOTORISTA TERIA FURADO SEMÁFOROS E COLOCADO PESSOAS EM RISCO
Durante a fuga, segundo os policiais ouvidos no processo, o motorista teria furado aproximadamente dez semáforos.
A perseguição passou por diferentes vias de Joinville, com risco para pedestres, motoristas e para as próprias equipes policiais.
Em determinado momento, uma barreira foi montada na Rua Max Collin.
Conforme os relatos dos agentes, o motorista teria jogado o veículo contra as guarnições que tentavam interromper a fuga.
O trajeto continuou até a região da saída para a BR-101.
DISPAROS NOS PNEUS ENCERRARAM A FUGA
Entre as equipes envolvidas na perseguição estava a guarnição do então sargento Nelson de Oliveira e Silva.
Durante a ocorrência, foram efetuados disparos contra o veículo.
Segundo as informações apresentadas no processo, Nelson realizou pelo menos dez disparos com uma pistola calibre .40.
Os tiros atingiram os pneus do automóvel e conseguiram interromper a fuga.
O veículo finalmente parou.
Apesar da gravidade da ocorrência, não houve registro de pessoas feridas no desfecho da perseguição.
O QUE O MOTORISTA DISSE À JUSTIÇA
Um dos pontos que mais chama atenção no processo é o depoimento do próprio motorista.
Segundo as informações divulgadas sobre o caso, ele admitiu em juízo que naquela noite tinha a intenção de matar os vizinhos.
Também teria afirmado que continuaria fugindo caso os pneus do veículo não fossem atingidos.
Essas declarações passaram a fazer parte do contexto analisado durante o processo envolvendo os policiais.
“PREFIRO SALVAR UMA VIDA A CUMPRIR UM POP”
Durante o interrogatório, Nelson afirmou que tomou a decisão de efetuar os disparos diante do risco que, segundo ele, o motorista representava para outras pessoas.
O policial sustentou que o veículo estava sendo utilizado como uma arma e que a prioridade naquele momento era impedir que a fuga continuasse.
Durante o depoimento, Nelson declarou:
“Prefiro salvar uma vida a cumprir um POP.”
A frase fazia referência ao Procedimento Operacional Padrão da corporação.
POR QUE NELSON FOI CONDENADO?
Apesar do contexto apresentado pela defesa, a Justiça Militar entendeu que os disparos realizados para interromper o veículo contrariaram o procedimento operacional previsto pela Polícia Militar.
Nelson foi condenado pelo crime de disparo de arma de fogo em via pública.
A pena foi estabelecida em três anos de reclusão, em regime semiaberto, além de 15 dias-multa.
A condenação foi mantida pelas instâncias judiciais, e o processo chegou ao Superior Tribunal de Justiça. A decisão que determinou o cumprimento da pena ocorreu após o encerramento das possibilidades recursais apresentadas pela defesa. O nome de Nelson também aparece em registro de decisão do STJ relacionada ao caso. (Jusbrasil)
OUTROS POLICIAIS TAMBÉM EFETUARAM DISPAROS
Outro ponto de destaque é que outros três policiais militares que participaram da ocorrência também efetuaram disparos durante a perseguição.
Segundo as informações apresentadas no processo, esses policiais firmaram acordos de não persecução penal com o Ministério Público.
Após o cumprimento das condições estabelecidas, a punibilidade dos três foi extinta.
Nelson acabou sendo o único policial condenado pelo episódio.
O CASO E A REPERCUSSÃO EM JOINVILLE
A condenação provocou forte repercussão justamente pelo contexto em que os disparos aconteceram.
De um lado, a decisão judicial considerou que a conduta do policial contrariou as normas operacionais para situações envolvendo veículos em fuga.
Do outro, apoiadores de Nelson destacam que a ocorrência envolveu uma perseguição de aproximadamente 17 quilômetros, relatos de ameaças, desobediência às ordens policiais, avanço de semáforos e risco às pessoas que estavam nas ruas.
A trajetória profissional do policial também pesa na repercussão. Em 2024, Nelson foi homenageado pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina por sua carreira e pelo trabalho desenvolvido na segurança pública. Na ocasião, a Alesc informou que ele acumulava mais de 350 prisões em flagrante em 40 anos de atuação. (ALESC)
No ano seguinte, recebeu a Comenda Barriga Verde, com a APRASC destacando seus mais de 41 anos de serviço e sua atuação operacional em Joinville. (APRASC)
UMA DECISÃO QUE CONTINUA DIVIDINDO OPINIÕES
O caso coloca frente a frente duas questões diferentes.
A primeira é a obrigação do policial de cumprir os procedimentos estabelecidos pela corporação.
A segunda é a realidade enfrentada pelos agentes durante uma perseguição em que, segundo os relatos do processo, havia um motorista embriagado, ameaças contra moradores, fuga por diversos quilômetros e risco de colisões e atropelamentos.
Foi nesse cenário que Nelson decidiu efetuar os disparos contra os pneus.
A Justiça entendeu que a forma utilizada para interromper a fuga configurou crime.
Já os defensores do policial consideram que a decisão tomada naquela noite teve como objetivo impedir que uma situação potencialmente ainda mais grave acontecesse.
O episódio permanece como um caso emblemático para discutir os limites da atuação policial em perseguições de alto risco:
quando uma fuga coloca outras vidas em perigo, até onde o policial pode ir para impedir que ela continue?
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