A história de Leonardo Lúcio Pereira, de Joinville, revela os impactos que o vício em apostas online pode provocar na saúde mental, nas famílias e na vida financeira. O jovem, que era apaixonado por surf, trilhas e pelo mar, começou a apostar em 2022 e, em pouco mais de dois anos, a dependência transformou sua relação com o dinheiro.
Segundo a mãe, Adriana Corrente, Leonardo teria perdido mais de R$ 300 mil durante o período em que enfrentou a dependência. Em abril de 2024, ele ligou para a mãe desesperado e revelou que estava viciado nas apostas e precisava de ajuda.
Jovem era apaixonado pelo mar
Antes de as apostas entrarem em sua rotina, Leonardo era descrito pela mãe como um jovem alegre e apaixonado pela vida. Ele surfava desde a adolescência, gostava de trilhas, do pôr do sol e de estar com os amigos.
Em 2024, a família buscou ajuda profissional. Leonardo passou por atendimento psicológico e foi encaminhado para uma terapia voltada à dependência. Durante quatro meses, apresentou sinais de melhora, mas a continuidade do tratamento acabou comprometida após um bloqueio bancário que dificultou o pagamento das sessões.
Em 8 de agosto de 2024, Leonardo tirou a própria vida. Para a mãe, a perda deixou marcas profundas em toda a família.
Vício em apostas cresce em Joinville
O caso de Leonardo não é isolado. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde de Joinville, o número de pacientes diagnosticados com dependência em jogos nas Unidades Básicas de Saúde da Família aumentou mais de 2 mil% entre 2020 e 2025.
A gerente de Saúde Mental do município, Priscila Tocachelis Battistella, alerta que os números podem ainda não representar toda a dimensão do problema, já que algumas pessoas procuram atendimento por outros motivos e não relatam inicialmente a dependência em apostas.
Na rede pública de Joinville, pessoas que enfrentam problemas relacionados às apostas podem buscar atendimento nas unidades básicas e nos serviços especializados em saúde mental. Os CAPS também oferecem grupos terapêuticos.
Impacto também chega ao SUS e às famílias
O crescimento do problema também é percebido em outras regiões. Dados do Ministério da Saúde apontam que, entre 2022 e 2025, o investimento do SUS em atendimentos ambulatoriais e hospitalares relacionados a jogos e apostas cresceu mais de 700%.
Além da saúde, as apostas também afetam diretamente o orçamento das famílias. Segundo o Procon de Santa Catarina, 10,9% das pessoas superendividadas no Estado estão nessa situação em razão das apostas.
A CDL de Joinville também aponta impactos no comércio. Segundo a entidade, 29% das pessoas que apostam deixaram de comprar roupas e calçados para direcionar dinheiro aos jogos, enquanto 19% deixaram de comprar itens básicos de alimentação.
Especialistas alertam para sinais de dependência
Entre os sinais de alerta estão o aumento da frequência das apostas, a elevação dos valores apostados e o uso de dinheiro destinado a compromissos essenciais para continuar jogando.
O especialista em Matemática e Estatística da Univille, Miguel Almada, também chama atenção para as probabilidades extremamente baixas de grandes premiações em determinados jogos. Segundo a análise apresentada na reportagem, a chance de ganhar o prêmio máximo do Tigrinho seria de uma em 40 milhões, ou 0,0000025%.
Para especialistas em saúde mental, a dependência pode se manifestar como um comportamento compulsivo, no qual a pessoa reconhece os prejuízos causados pelas apostas, mas ainda assim não consegue interromper o hábito.
A história de Leonardo mostra que os impactos das apostas podem ultrapassar o dinheiro perdido e atingir profundamente a saúde, os relacionamentos e toda a estrutura familiar.
Para Adriana, mãe do jovem, as consequências permanecem. “Abalou a família inteira. Inteira, inteira. Todo mundo. Até hoje, eu não sei se um dia vou me recuperar”, desabafou.
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