“HOJE É INVIÁVEL”: BR-282 SEM DUPLICAÇÃO VIRA TESTE DE PACIÊNCIA E RISCO NO OESTE DE SC

Para quem atravessa a BR-282 todos os dias, a dificuldade não está apenas no tempo gasto no trajeto. Está nas filas formadas atrás de caminhões, nas ultrapassagens que exigem atenção redobrada e no medo de que uma manobra termine em acidente.

“Hoje é inviável não ter a duplicação na nossa região”, resume o motorista Juliano Machado, que conhece de perto os desafios enfrentados por quem depende da rodovia no Oeste de Santa Catarina.

A realidade é compartilhada por motoristas, transportadores e entidades empresariais que há anos cobram a duplicação da rodovia. O trecho entre Chapecó e Irani tem 98 quilômetros e recebe aproximadamente 16 mil veículos por dia, sendo 35% deles de carga pesada.

Com pista simples e fluxo intenso, caminhões mais lentos acabam formando longas filas, enquanto os motoristas precisam esperar por oportunidades consideradas seguras para ultrapassar.

Segundo Juliano, a situação se agrava quando há veículos pesados no trajeto.

“Quando tem um caminhão com um pouco mais de peso, ele é mais lento e sai uma fila indiana daqui até o trevo do Irani”, relata.

Para quem utiliza a rodovia com frequência, o problema deixou de ser apenas uma questão de conforto ou tempo de viagem.

“Vemos acidentes todos os dias, familiares e amigos que se vão, além de ultrapassagens forçadas. Hoje é inviável não ter a duplicação na nossa região”, afirma o motorista.

BR-282 É ESTRATÉGICA PARA O OESTE DE SC

A BR-282 é a maior rodovia de Santa Catarina e conecta Dionísio Cerqueira, no Extremo-Oeste, na fronteira com a Argentina, à Grande Florianópolis.

A estrada é um dos principais caminhos utilizados para o transporte de pessoas e para o escoamento da produção regional.

No Oeste, a pressão pela ampliação aumentou justamente por causa do peso da rodovia na economia regional. O crescimento do fluxo de veículos, porém, não foi acompanhado pela duplicação em grande parte do trajeto.

“NÃO ADIANTA FAZERMOS APENAS UM TRECHO”, DIZ FACISC

A duplicação da BR-282 está entre as principais demandas apresentadas pela Facisc (Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina) aos candidatos aos cargos de deputado estadual e federal.

Para o vice-presidente da entidade, Vilson Otto, a reivindicação não é recente e ganhou força novamente após uma mobilização regional para colocar a obra entre as prioridades dos representantes políticos.

A entidade defende que a duplicação não fique restrita ao trecho entre Chapecó e Xanxerê, mas avance de maneira mais ampla pela região.

“Não adianta fazermos apenas um trecho, como foi proposto pela ANTT, Chapecó a Xanxerê. Nós precisamos, realmente, que ela ocorra em sua totalidade e que, pelo menos, ligue até a BR-470, no intervalo de Campos Novos a Chapecó. Esse é o principal e o mais urgente que estamos precisando”, afirma Vilson.

Para ele, a situação está diretamente relacionada à distância do Oeste em relação aos portos catarinenses. A ausência de uma alternativa ferroviária também é apontada como um dos motivos para acelerar a discussão sobre a duplicação.

VIAGENS PELA BR-282 FICARAM MAIS DEMORADAS

Além da segurança, o tempo de deslocamento é outro impacto apontado por quem trabalha com o transporte de cargas.

Ivalberto Tozzo, presidente do Sitran (Sindicato das Empresas de Transporte de Carga e Logística), afirma que a lentidão da rodovia pesa diretamente nos custos das empresas.

“Não é simplesmente inserir uma terceira faixa. Precisa de mais duplicação para que o trânsito flua e que nós possamos diminuir nossos custos de combustíveis, pneus e manutenção.”

Segundo o setor, um deslocamento que anteriormente poderia ser feito entre Chapecó e o trevo do Irani em aproximadamente uma hora ou uma hora e 20 minutos passou, em determinados momentos, a levar cerca de duas horas e meia.

Para as transportadoras, cada minuto a mais na estrada representa aumento no consumo de combustível, desgaste de pneus e outros custos operacionais.

O impacto, segundo Tozzo, também chega ao consumidor.

“Isso vai parar no bolso do consumidor, já que eleva os itens de consumo.”

472 PESSOAS FICARAM FERIDAS EM 2025

A preocupação também envolve a segurança de quem utiliza a rodovia.

Dados apresentados pela NDTV Record apontam que 472 pessoas ficaram feridas em acidentes na BR-282, na região Oeste, em 2025. O número representa aumento de 32% em relação a 2018.

Considerando as demais rodovias do Oeste, foram mais de 5 mil pessoas feridas e 400 vítimas em acidentes ao longo de uma década.

O volume reforça uma das principais justificativas apresentadas pelas entidades para a duplicação: além de melhorar o fluxo e reduzir os custos logísticos, uma rodovia com pistas separadas pode contribuir para diminuir situações de conflito entre veículos que trafegam em sentidos opostos.

Para Ivalberto, a atual configuração da estrada é um dos fatores que tornam o deslocamento mais arriscado.

“Tudo isso é reflexo das rodovias mal cuidadas, com faixas simples, que não têm espaço para ultrapassagem, não têm espaço para fluir o trânsito.”

PROJETOS ESTÃO EM ANDAMENTO, MAS SEM PRAZO DEFINIDO

O DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) informou que os projetos para a duplicação da BR-282 entre São Miguel do Oeste e Palhoça foram contratados em 13 lotes.

Inicialmente, a previsão era de que o projeto para a duplicação do trecho entre Chapecó e Irani fosse entregue em setembro deste ano.

Questionado sobre o andamento, porém, o DNIT informou que o projeto está em fase de produção e não há prazo definido para a conclusão.

Enquanto o projeto avança, a expectativa das entidades empresariais é que a duplicação entre definitivamente na agenda dos próximos governos e parlamentares.

“Nós estamos falando não apenas do escoamento da nossa produção e do ressuprimento dos insumos que precisamos para produzir, mas também estamos falando em vidas”, afirma Vilson Otto.

A cobrança, segundo as entidades, é para que a obra avance de forma efetiva.

Para quem está diariamente ao volante, como Juliano Machado, a espera também tem um custo: mais tempo na estrada, mais filas e mais insegurança em uma rodovia que se tornou essencial para o Oeste catarinense.

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